CBD, THC e espasticidade: o que as evidências mostram

Por Dra. Carolina Almeida · CRM-ES 19277 | RQE 13459 · Revisado em setembro de 2026

Dra. Carolina Almeida em consultório de neurologia

Espasticidade é o aumento involuntário do tônus muscular após uma lesão do sistema nervoso central. Pode causar espasmos, dor, dificuldade de movimento e limitações nas atividades diárias. O tratamento depende da causa, da distribuição dos músculos afetados e do impacto funcional.

Distinção essencial: a maior parte dos estudos positivos não avaliou CBD isolado. Avaliou formulações padronizadas que combinam THC e CBD, principalmente como tratamento complementar da espasticidade refratária associada à esclerose múltipla.

1. Espasticidade não é o mesmo que rigidez

A espasticidade costuma surgir em condições como AVC, esclerose múltipla, paralisia cerebral e lesão medular. No exame, a resistência ao movimento passivo aumenta conforme a velocidade do alongamento.

A rigidez da doença de Parkinson é um fenômeno diferente. Embora as duas condições possam ser descritas pelo paciente como “músculo duro”, elas têm mecanismos e tratamentos distintos. Portanto, resultados de estudos sobre espasticidade na esclerose múltipla não podem ser usados como prova de benefício para rigidez no Parkinson.

2. Onde existe mais evidência

A evidência mais consistente envolve formulações oromucosas padronizadas de THC:CBD usadas como complemento em alguns adultos com esclerose múltipla e espasticidade persistente apesar do tratamento habitual.

Revisões sistemáticas apontam um benefício médio pequeno ou modesto, mais perceptível em escalas relatadas pelos próprios pacientes do que em medidas objetivas. Também há limitações importantes nos estudos, e tontura, sonolência, náusea e outros efeitos adversos podem levar à interrupção do tratamento.

3. O que não pode ser extrapolado

  • CBD isolado: não deve receber o crédito por resultados obtidos com uma combinação de THC e CBD.
  • Espasticidade após AVC: um ensaio randomizado com nabiximols não demonstrou benefício.
  • Rigidez no Parkinson: é diferente de espasticidade, e a evidência da esclerose múltipla não comprova eficácia nessa situação.
  • Fisioterapia: a reabilitação pode fazer parte do manejo, mas não há base para afirmar que CBD facilita a fisioterapia ou que a combinação seja superior às abordagens isoladas.

4. Tratamento é orientado por objetivos funcionais

Nem todo aumento de tônus precisa ser reduzido: em algumas pessoas, ele ajuda a sustentar a postura ou a transferência. A avaliação considera dor, espasmos, higiene, sono, mobilidade, posicionamento e participação nas atividades cotidianas.

O plano pode envolver fisioterapia e terapia ocupacional, manejo de fatores que pioram os espasmos, medicamentos orais, toxina botulínica para grupos musculares selecionados e outras intervenções. A escolha é individualizada e deve considerar benefícios funcionais e efeitos adversos.

5. Quando canabinoides entram na conversa

A discussão pode ser pertinente em situações selecionadas, sobretudo quando há esclerose múltipla com espasticidade persistente e resposta insuficiente às medidas usuais. Ainda assim, uma consulta não garante indicação ou prescrição.

É necessário distinguir CBD de THC:CBD, revisar outros medicamentos e avaliar riscos como sonolência, tontura, alterações cognitivas, de humor e de coordenação. Produto, composição, acesso e prescrição devem seguir as regras sanitárias vigentes da Anvisa.

Perguntas frequentes

CBD isolado reduz a espasticidade?

Não há evidência clínica suficiente para atribuir ao CBD isolado o benefício observado em estudos de formulações padronizadas com THC e CBD. Esses produtos e resultados não são equivalentes.

Para qual condição existe mais evidência?

A evidência mais consistente é para formulações THC:CBD como tratamento complementar em alguns adultos com espasticidade refratária associada à esclerose múltipla. O benefício médio é modesto e aparece sobretudo em medidas relatadas pelos pacientes.

A evidência da esclerose múltipla vale para espasticidade após AVC?

Não. Os resultados não podem ser extrapolados automaticamente. Um ensaio randomizado com nabiximols em espasticidade pós-AVC não demonstrou benefício.

Rigidez na doença de Parkinson é o mesmo que espasticidade?

Não. Embora ambas aumentem a resistência ao movimento, têm mecanismos e exame clínico diferentes. A evidência sobre espasticidade na esclerose múltipla não prova benefício para rigidez do Parkinson.

A espasticidade está limitando atividades ou causando dor?

A avaliação neurológica considera a causa, os objetivos funcionais e as alternativas de tratamento. O agendamento não implica indicação ou prescrição de cannabis medicinal.

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Referências consultadas: